Refrigerante, TV preto e branco, televisinho e memória afetiva.

Refrigerante, TV preto e branco, televisinho e memória afetiva.

Durante boa parte do século passado, abrir uma garrafa de refrigerante era muito mais do que matar a sede. Era participar de um ritual que reunia família, amigos e vizinhos em bares, lanchonetes, festas de aniversário ou nas antigas sessões de cinema de rua.

Entre as marcas que marcaram época está o Crush, especialmente o tradicional sabor de laranja. Hoje praticamente ausente das prateleiras brasileiras, o refrigerante continua vivo na memória de quem cresceu entre as décadas de 1960 e 1990.

Criado nos Estados Unidos em 1911, o Orange Crush conquistou consumidores em diversos países e também encontrou espaço no Brasil, onde foi produzido por diferentes fabricantes ao longo das décadas. Com suas garrafas de vidro e campanhas publicitárias marcantes, tornou-se parte da paisagem das cidades e do cotidiano de milhões de pessoas.

Produtos e marcas que ficaram na lembrança

Naquela época, o mercado brasileiro de refrigerantes era muito mais diversificado. Além das grandes multinacionais, existiam inúmeras fábricas regionais. Marcas como Crush, Grapette, Mirinda, Gini, Teem e tantas outras disputavam espaço nas geladeiras, nos bares e nas mercearias de bairro.

Os comerciais de televisão vendiam muito mais do que uma bebida. Vendiam juventude, férias, amizade e momentos felizes. O refrigerante aparecia como a recompensa depois de um jogo de futebol, de um passeio em família ou de uma tarde com os amigos.

Talvez por isso tantas pessoas ainda se lembrem do Crush, mesmo décadas depois de seu desaparecimento em escala nacional. O que permanece não é apenas o sabor, mas todo o contexto em que ele fazia parte da vida.

A mão boba e os cines drive-ins

No cinema, o Crush nunca alcançou a presença de gigantes como a Coca-Cola. Ainda assim, sua imagem integra o universo visual das antigas lanchonetes americanas, dos drive-ins, dos postos de gasolina e dos cinemas de bairro.

Uma simples garrafa sobre um balcão pode transportar o espectador imediatamente para outra época.

Os antigos drive-ins também ficaram famosos por outro motivo: a lendária “mão boba”. Muito antes dos aplicativos de namoro, os carros estacionados diante da tela tornaram-se cenário de muitos

romances. Enquanto o filme passava, nem sempre a atenção estava voltada para a projeção. A brincadeira entrou para o folclore popular e ajudou a transformar os drive-ins em um dos maiores símbolos da juventude e do namoro nas décadas de 1950, 60 e 70.

Na literatura também existem referências interessantes. O escritor norte-americano Tim Dorsey publicou o romance Orange Crush, enquanto a escritora chinesa Yiyun Li utilizou o mesmo título para um ensaio autobiográfico em que o refrigerante representa memória, descoberta e transformação cultural. Nesses casos, a bebida deixa de ser apenas um produto para se tornar símbolo de uma época.

Mas talvez a maior importância cultural do Crush esteja justamente nas lembranças que desperta.

TV preto e branco e televisinho

Quem viveu aqueles anos provavelmente também se recorda das garrafas retornáveis, das tampinhas metálicas, das geladeiras de bar repletas de gelo e dos encontros em frente à televisão.

Era o tempo do “televizinho”, quando quem não possuía aparelho ia assistir à novela ou ao futebol na casa do vizinho. Muitos ainda lembram da primeira televisão em cores da rua, enquanto a maioria assistia aos programas em preto e branco. Alguns até colocavam folhas plásticas coloridas sobre a tela para dar a impressão de que a imagem era colorida.

Essas pequenas lembranças mostram que a cultura popular não é construída apenas por grandes filmes, livros ou obras de arte. Ela também nasce dos objetos mais simples do cotidiano.

Um refrigerante pode contar a história da publicidade, da televisão, das embalagens, dos bares, da convivência entre vizinhos e dos hábitos de consumo de uma geração inteira.

O Crush pode não ocupar mais espaço nas gôndolas dos supermercados brasileiros, mas continua presente em fotografias antigas, coleções, anúncios de época e, principalmente, na memória afetiva de milhões de pessoas.

Mais do que uma bebida, ele se tornou um símbolo de um Brasil que talvez não volte, mas que permanece vivo nas histórias de quem teve o privilégio de vivê-lo.