Julgamento de Nuremberg: a humanidade diante de seus crimes.
Entre as produções históricas exibidas pela ORTVWEB, O Julgamento de Nuremberg (Nuremberg) merece destaque pela forma como transforma um dos acontecimentos jurídicos mais importantes do século XX em um intenso drama humano e político.
Produzida em 2000 e dirigida por Yves Simoneau, a obra foi originalmente concebida como uma minissérie televisiva e tem Alec Baldwin no papel central do procurador norte-americano Robert H. Jackson.
A produção é baseada no livro Nuremberg: Infamy on Trial, de Joseph E. Persico, e a própria produtora de Baldwin participou da realização da minissérie.
A história começa depois da derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.
Com o regime de Adolf Hitler destruído, as potências aliadas enfrentam uma questão inédita: o que fazer com os principais dirigentes nazistas capturados?
Em vez de simplesmente executá-los, prevalece a decisão de submetê-los a um tribunal internacional.
Nasce assim o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg.
Historicamente, 22 dos principais criminosos de guerra nazistas foram levados a julgamento entre novembro de 1945 e outubro de 1946, diante de um tribunal formado por representantes dos Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França.
É nesse cenário que encontramos Robert H. Jackson.
Interpretado por Alec Baldwin, ele recebe a missão de organizar a acusação norte-americana e ajudar a construir juridicamente um processo para o qual praticamente não existiam precedentes.
Como julgar homens responsáveis por crimes cometidos sob a autoridade de um Estado?
Como provar a responsabilidade individual de dirigentes que alegavam estar apenas cumprindo suas funções?
E como transformar em provas judiciais atrocidades de uma dimensão que o mundo ainda começava a compreender?
Essas perguntas movem boa parte da narrativa.
Do outro lado está Hermann Göring, interpretado por Brian Cox.
Göring havia sido uma das figuras mais poderosas do regime nazista e transforma-se em um dos grandes adversários de Jackson dentro do tribunal.
Inteligente, articulado e ainda profundamente identificado com o nazismo, ele tenta utilizar o julgamento como seu último palco político.
O confronto entre Jackson e Göring torna-se um dos eixos dramáticos mais fortes da produção.
Mas O Julgamento de Nuremberg não é apenas uma disputa entre dois homens.
Gradualmente, o tribunal revela a dimensão dos crimes praticados pelo regime.
Documentos, testemunhos, fotografias e principalmente imagens cinematográficas passam a fazer parte das provas.
Esse aspecto apresentado pela dramatização possui uma poderosa correspondência histórica.
No julgamento verdadeiro, os promotores aliados apresentaram milhares de documentos alemães, fotografias, testemunhos e filmes como provas da perseguição sistemática e do assassinato dos judeus europeus.
Em 29 de novembro de 1945, imagens dos campos de concentração libertados pelos Aliados foram projetadas dentro do próprio tribunal.
Quando as luzes se acenderam novamente, o impacto entre os presentes foi profundo.
O cinema, que havia sido amplamente utilizado pelo nazismo como instrumento de propaganda, transformava-se agora em testemunha de seus crimes.
É justamente nesse ponto que a produção ultrapassa os limites de um simples drama de tribunal.
Estamos diante de uma história sobre a construção da memória.
Sobre a necessidade de documentar aquilo que aconteceu.
E também sobre a tentativa de estabelecer que determinados crimes são tão graves que seus responsáveis não podem simplesmente escondê-los atrás da estrutura de um Estado.
O extermínio dos judeus ocupa inevitavelmente posição fundamental nesse processo.
A documentação apresentada em Nuremberg ajudou a demonstrar a política sistemática de perseguição e assassinato implementada pelo regime nazista contra os judeus da Europa.
Mas é importante lembrar que a política racial nazista atingiu também outros grupos.
Entre eles estavam os povos Roma e Sinti, frequentemente chamados genericamente de ciganos.
Eles foram classificados pelos nazistas como racialmente inferiores, sofreram perseguições, deportações e assassinatos em massa; dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças Roma e Sinti foram mortos pelos nazistas e seus colaboradores.
As próprias Leis de Nuremberg, inicialmente dirigidas sobretudo contra os judeus, tiveram posteriormente sua aplicação racial estendida também aos Roma, além de pessoas negras e seus descendentes.
Esse contexto amplia a importância histórica da obra.
O que estava sendo julgado não era somente um conjunto de atos individuais.
Era também um sistema político que transformara preconceito em política de Estado, discriminação em legislação e perseguição em mecanismo administrativo.
E talvez esteja aí uma das razões pelas quais O Julgamento de Nuremberg permanece relevante.
A produção nos obriga a pensar sobre responsabilidade individual dentro de estruturas autoritárias.
Até onde alguém pode alegar que estava apenas obedecendo?
Quando o cumprimento de uma ordem passa a significar participação em um crime?
Existe uma obrigação moral superior à obediência ao Estado?
Nuremberg tentou estabelecer respostas jurídicas para perguntas dessa natureza.
Os julgamentos também ajudaram a consolidar conceitos fundamentais do Direito Internacional relacionados aos crimes de guerra e aos crimes contra a humanidade.
Dos 22 principais acusados levados ao Tribunal Militar Internacional, doze receberam sentença de morte; outros foram condenados a diferentes períodos de prisão ou à prisão perpétua, enquanto três foram absolvidos.
A produção de 2000 consegue apresentar esses acontecimentos sem transformar a História em uma simples aula.
O tribunal torna-se um ambiente de tensão psicológica, política e moral.
Alec Baldwin constrói um Robert Jackson determinado, mas também confrontado pelas dificuldades gigantescas da missão que recebeu.
Brian Cox, por sua vez, apresenta um Göring perturbador justamente porque não o reduz a uma figura irracional.
Ele aparece como um homem capaz de argumentar, manipular e tentar controlar a narrativa sobre aquilo que ajudou a construir.
Essa disputa pela narrativa é também uma disputa pela memória.
Quem contará o que aconteceu?
Os vencedores?
Os sobreviventes?
Os documentos?
Os próprios acusados?
Em Nuremberg, pela primeira vez, uma quantidade extraordinária de provas foi organizada para que os crimes do regime nazista fossem examinados diante de um tribunal internacional.
Décadas depois, essa documentação continua sendo uma poderosa resposta às tentativas de negar ou minimizar o Holocausto.
Por isso, assistir a O Julgamento de Nuremberg hoje significa mais do que acompanhar uma produção histórica.
Significa observar um momento em que a humanidade tentou criar mecanismos jurídicos para responder a crimes que pareciam ultrapassar os limites do próprio Direito existente até então.
É cinema, mas também é memória.
É drama, mas também é reflexão.
E é justamente esse tipo de obra que ajuda a ampliar a diversidade da programação da ORTVWEB, colocando lado a lado entretenimento, cultura, cinema clássico e acontecimentos fundamentais da História.
O Julgamento de Nuremberg está na programação da ORTVWEB.
Uma produção para assistir, conhecer e, principalmente, refletir.
ORTVWEB — cinema, cultura e audiovisual.