Etarismo na cultura: quando a experiência deixa de ter espaço.
O etarismo é um fenômeno presente em várias áreas da atividade humana, seja no mundo corporativo, no esporte, na educação e na cultira.
O Brasil, um país de extrema diversidade artística e cultural, celebra seus grandes artistas, mas ainda precisa aprender a valorizá-los enquanto continuam vivos, ativos e dispostos a produzir cultura.
Nossa música, nosso cinema, nossa televisão, nossa literatura, nosso teatro e nossas manifestações populares atravessaram fronteiras e ajudaram a construir uma identidade cultural reconhecida em diversas partes do mundo.
Existe, entretanto, uma contradição incômoda nessa história.
Celebramos nossos artistas, reprisamos suas obras, compartilhamos cenas antigas nas redes sociais, realizamos homenagens e exaltamos carreiras que atravessaram décadas. Mas, a partir de determinada idade, muitos desses mesmos profissionais começam a encontrar dificuldades para conseguir novos trabalhos.
É uma das manifestações do etarismo — a discriminação ou o preconceito relacionado à idade.
Na produção cultural, esse preconceito nem sempre aparece de maneira explícita. Raramente alguém precisa dizer que determinado ator, atriz, músico, escritor ou diretor está “velho demais”.
O processo pode ser muito mais silencioso.
Os convites diminuem. Os personagens desaparecem. As oportunidades tornam-se mais raras. O profissional que durante décadas acumulou conhecimento e experiência começa a ser tratado como representante de um tempo que passou.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores injustiças.
Envelhecer não significa deixar de ser artista.
Quando a fama não garante o futuro
A carreira artística é marcada por uma característica que frequentemente passa despercebida pelo público: a instabilidade.
A imagem de fama e glamour pode transmitir a impressão de que todo artista conhecido acumulou patrimônio suficiente para viver confortavelmente pelo resto da vida.
Isso simplesmente não corresponde à realidade de grande parte da profissão.
Atores, músicos e inúmeros outros trabalhadores da cultura frequentemente passam a vida alternando contratos, cachês e períodos sem atividade remunerada. Pouquíssimos permanecem durante décadas sob contratos permanentes.
Por isso, mesmo profissionais que fizeram parte de grandes momentos da cultura brasileira podem chegar à maturidade dependendo de aposentadorias modestas e, principalmente, ainda necessitando trabalhar.
O caso da atriz Joana Fomm tornou-se particularmente emblemático.
Com uma carreira de mais de meio século e personagens marcantes na televisão, no teatro e no cinema, a atriz já tornou pública sua vontade de continuar trabalhando.
Em 2016, uma manifestação de Joana nas redes sociais, na qual procurava oportunidades profissionais, ganhou grande repercussão. Anos depois, já aos 85 anos, ela voltou a falar publicamente sobre a falta que sentia do trabalho e sobre seu desejo de retornar ao cinema.
O episódio suscita uma pergunta desconfortável:
Como uma atriz com tamanha experiência precisa lembrar ao mercado que ainda deseja atuar?
Marcos Oliveira e o artista que ainda quer trabalhar
Outro caso que ganhou grande repercussão foi o do ator Marcos Oliveira, conhecido nacionalmente por interpretar Beiçola em A Grande Família.
O próprio ator já relacionou publicamente algumas dificuldades profissionais ao etarismo e falou sobre a escassez de oportunidades.
Sua trajetória ajuda a revelar um aspecto importante dessa discussão.
O artista veterano não necessariamente deseja parar.
Muitas vezes é o mercado que começa a parar de procurá-lo.
E existe uma diferença enorme entre alguém decidir encerrar sua carreira e alguém continuar querendo trabalhar, mas não encontrar oportunidades.
Suely Franco: segurança sem abandonar o palco
A trajetória de Suely Franco permite observar a questão por outro ângulo.
Depois de uma carreira extraordinária, a atriz também já falou sobre a redução das oportunidades profissionais com o avanço da idade.
Em 2026, aos 86 anos, recebeu da Globo um contrato vitalício, iniciativa que oferece segurança a uma profissional cuja história se confunde com a própria dramaturgia brasileira.
Mas talvez o aspecto mais significativo seja que Suely Franco continua manifestando vontade de atuar.
Teatro, televisão, dublagem.
Continuar representando.
Isso demonstra algo que deveria parecer óbvio: oferecer segurança ao artista veterano não significa decretar o encerramento de sua carreira.
Kátia D’Angelo e uma geração que ajudou a construir nosso audiovisual
A reflexão também pode ser ampliada para nomes como Kátia D’Angelo, representante de uma geração de profissionais que participou intensamente da construção do cinema e da televisão brasileiros.
Aqui é necessário fazer uma distinção importante.
Falar sobre etarismo não significa afirmar que todo artista veterano esteja passando por dificuldades financeiras ou pessoais.
Não se trata disso.
A questão é perguntar por que tantos profissionais com décadas de experiência passam a ocupar menos espaço no audiovisual justamente quando acumulam maior domínio de seu ofício.
O currículo não desaparece quando aparecem os cabelos brancos.
A experiência não perde validade aos 60, 70 ou 80 anos.
Muito pelo contrário.
Carlo Mossy e a demonstração de que experiência continua produzindo
Carlo Mossy representa muito bem outro lado dessa discussão.
Ator, diretor, roteirista e produtor, ele participou intensamente de um período extremamente produtivo do cinema brasileiro e construiu uma extensa trajetória audiovisual.
Mas sua história não precisa ser contada exclusivamente no passado.
Mossy continua atuando.
Sua participação no longa-metragem O Combinado Não É Caro – Pacto Entre Canalhas é justamente uma demonstração prática de algo que o mercado audiovisual deveria compreender melhor.
Um artista veterano não precisa ser convidado apenas para receber uma homenagem.
Pode ser convidado para trabalhar.
E existe uma diferença gigantesca entre as duas coisas.
Reconhecer uma carreira é importante. Exibir retrospectivas é importante. Conceder prêmios pelo conjunto da obra é importante.
Mas talvez a maior homenagem possível a um profissional que ainda deseja exercer sua atividade seja simplesmente oferecer-lhe um novo personagem, um novo roteiro, um novo palco, uma nova câmera e uma nova oportunidade.
O problema vai muito além dos famosos
Quando casos envolvendo artistas conhecidos chegam à imprensa, temos acesso apenas à parte mais visível do problema.
Existem milhares de profissionais da cultura que jamais alcançaram fama nacional.
São atores, atrizes, músicos, escritores, técnicos, iluminadores, cenógrafos, figurinistas, maquiadores, montadores, produtores, fotógrafos, diretores e inúmeros outros trabalhadores que dedicaram décadas às atividades culturais.
Se artistas conhecidos pelo grande público enfrentam redução de oportunidades depois de determinada idade, imagine a situação daqueles cujos nomes nunca estiveram nas capas de revistas ou nos grandes programas de televisão.
Por isso, discutir etarismo na cultura não significa discutir apenas celebridades.
Significa discutir trabalho.
Onde estão os personagens idosos?
Existe ainda outra dimensão do problema: aquilo que aparece nas próprias telas.
A população brasileira está envelhecendo, mas será que nossas histórias estão envelhecendo junto com ela?
Pessoas com 60, 70 ou 80 anos se apaixonam.
Trabalham.
Empreendem.
Viajam.
Erram.
Têm desejos.
Têm sexualidade.
Enfrentam conflitos familiares.
Fazem humor.
Cometem crimes.
Vivem aventuras.
Começam relacionamentos.
Terminam relacionamentos.
Mudam de profissão.
Começam projetos.
Por que, então, tantos personagens idosos ainda são reduzidos ao papel do avô, da avó, do doente ou do personagem secundário utilizado apenas para aconselhar os protagonistas mais jovens?
Por que não podemos ter um suspense protagonizado por uma mulher de 75 anos?
Por que não uma aventura protagonizada por um homem de 80?
Por que não histórias de amor nessa idade?
Por que um protagonista de 70 anos seria necessariamente menos interessante do que um protagonista de 30?
A dramaturgia não estabelece esse limite.
Nós é que o estabelecemos.
Diversidade também significa diversidade de idade
Falamos corretamente sobre a necessidade de ampliar a diversidade na produção cultural.
Mas existe uma diversidade que ainda recebe pouca atenção: a diversidade geracional.
Uma sociedade é formada simultaneamente por crianças, jovens, adultos e idosos.
Sua produção cultural deveria ser capaz de representar todas essas pessoas.
Isso não significa retirar oportunidades dos jovens para entregá-las aos mais velhos.
Essa oposição não faz sentido.
Uma cultura saudável precisa justamente promover o encontro das gerações.
Um jovem profissional pode trazer novas tecnologias, novas linguagens e novas maneiras de interpretar o mundo.
Um profissional veterano carrega décadas de experiência, memória e conhecimento acumulado.
Imagine o que pode nascer quando essas duas forças trabalham juntas.
E quando a carreira artística começa mais tarde?
Existe ainda uma dimensão do etarismo que talvez seja menos discutida: a ideia de que existe uma idade certa para começar.
Nossa sociedade aceita com naturalidade que uma pessoa de 20 ou 30 anos decida tornar-se escritora, cineasta, atriz ou produtora cultural. Mas quando alguém toma essa decisão depois dos 50 ou 60 anos, não é raro surgir uma pergunta, ainda que silenciosa:
“Não está tarde demais para começar?”
Eu mesmo sou um exemplo de que essa pergunta não faz muito sentido.
Depois de quase 40 anos de vida profissional, trabalhando em diferentes períodos como bancário, professor, consultor empresarial e palestrante, resolvi virar a chave.
Não abandonei aquilo que vivi durante essas décadas. Ao contrário: trouxe comigo toda essa experiência para uma nova etapa.
Tornei-me escritor.
Depois, produtor cultural.
Passei a desenvolver projetos, escrever, produzir conteúdos, trabalhar com audiovisual e buscar novas formas de transformar ideias em realizações.
E, mais recentemente, passei a atuar também como produtor cinematográfico.
Não comecei essa trajetória aos 20 anos.
Comecei quando muita gente provavelmente imaginaria que deveria estar pensando apenas em diminuir o ritmo.
E aconteceu justamente o contrário.
Vieram novos projetos, novos aprendizados, novos desafios e até tecnologias que praticamente não existiam quando iniciei minha primeira trajetória profissional. Hoje trabalho com cinema, produção cultural, televisão pela internet, literatura e ferramentas de inteligência artificial aplicadas à criação audiovisual.
Continuo aprendendo.
E talvez esse seja um dos maiores equívocos do etarismo: imaginar que envelhecer significa necessariamente caminhar em direção à imobilidade.
Não significa.
Uma pessoa pode chegar aos 60 anos carregando não apenas seis décadas de idade, mas também seis décadas de referências, experiências, erros, acertos, histórias, relações humanas e conhecimento.
Tudo isso pode se transformar em matéria-prima para a criação.
Quando comecei a escrever e posteriormente passei à produção cultural e cinematográfica, não voltei à estaca zero.
Levei comigo o professor, o bancário, o consultor, o palestrante e, sobretudo, todas as experiências acumuladas durante minha vida.
Talvez eu não tivesse escrito aos 25 anos as histórias que consigo escrever hoje.
Talvez não enxergasse um projeto cultural da maneira como consigo enxergá-lo agora.
E certamente teria outras referências.
Isso significa que devemos romantizar o envelhecimento?
Não.
Existem limitações, dificuldades e transformações naturais em qualquer etapa da vida. Mas nenhuma delas deveria criar antecipadamente uma fronteira determinando aquilo que alguém ainda pode ou não começar.
O mesmo vale para a produção cultural.
Por que alguém não poderia publicar seu primeiro livro aos 65 anos?
Por que não poderia produzir seu primeiro filme aos 70?
Por que uma mulher de 75 anos não poderia começar a pintar?
Por que alguém aposentado de uma profissão convencional não poderia entrar numa faculdade de cinema, subir num palco, criar um canal, aprender edição, escrever um roteiro ou produzir uma peça?
Quem estabeleceu essas datas de validade?
A cultura deveria ser justamente um dos territórios mais livres para essas transformações.
Minha própria experiência me ensinou algo muito simples:
virar a chave não significa apagar a vida anterior. Significa utilizar tudo aquilo que vivemos para abrir uma nova porta.
E talvez seja necessário começar a falar não apenas sobre o direito de envelhecer trabalhando na cultura, mas também sobre o direito de envelhecer começando.
Não queremos artistas veteranos como peças de museu
Talvez seja necessário mudar até mesmo a maneira como homenageamos nossos artistas.
Existe algo profundamente contraditório em celebrar alguém por tudo aquilo que realizou no passado enquanto ninguém lhe oferece a possibilidade de realizar alguma coisa no presente.
Transformamos pessoas em patrimônio cultural enquanto elas ainda estão vivas.
Colocamos suas carreiras em retrospectivas.
Dizemos que determinada atriz é “inesquecível”.
Chamamos determinado ator de “eterno”.
Mas será que perguntamos se eles querem ser apenas eternos personagens do passado?
Talvez alguns deles simplesmente queiram receber um roteiro amanhã de manhã.
O verdadeiro combate ao etarismo não consiste em olhar para o artista veterano com compaixão.
Consiste em continuar olhando para ele como profissional.
A arte não tem aposentadoria compulsória
Aos 20 anos, alguém pode iniciar uma carreira.
Aos 40, pode reinventá-la.
Aos 60, pode descobrir uma nova linguagem.
Aos 70, pode dirigir seu primeiro filme.
Aos 80, pode interpretar o melhor personagem de sua vida.
E aos 90 pode simplesmente decidir que ainda não chegou a hora de parar.
Quem deveria tomar essa decisão é o próprio artista — não o preconceito do mercado.
Joana Fomm, Marcos Oliveira, Suely Franco, Kátia D’Angelo, Carlo Mossy e tantos outros nomes pertencem a histórias e circunstâncias diferentes. Não devem ser colocados artificialmente na mesma situação econômica ou profissional.
Mas suas trajetórias permitem levantar uma mesma questão:
O que estamos fazendo com a experiência acumulada por gerações de artistas brasileiros?
O Brasil precisa aprender a valorizar sua memória cultural.
Mas precisa compreender que memória não significa passado.
Algumas das pessoas que ajudaram a construir a história da cultura brasileira ainda estão aqui.
Ainda pensam.
Ainda criam.
Ainda interpretam.
Ainda escrevem.
Ainda dirigem.
Ainda têm histórias para contar.
E talvez o que muitas delas menos precisem seja ouvir mais uma vez:
“Obrigado por tudo o que você fez.”
Talvez seja muito mais importante ouvir:
“Qual será o seu próximo trabalho?”
Texto de Orlando Rodrigues
Escritor e produtor cultural.